O poema que aqui escrevo pretende caracterizar toda a situação de calamidade que se vive em Portugal, de Norte a Sul do país (para muitos, situações nunca antes vividas), mas também pretende expressar a minha solidadriedade para com todos os que viveram na primeira pessoa situações de angústia, sofrimento e dor que todas estas tempestades proporcionaram, ou ainda proporcionaram, pois os danos são incalculáveis em muitas zonas do país.
Que os próximos tempos sejam de esperança, coragem e fé no dia de amanhã🙏
Há tantos anos, a esta data,
Nunca pensei ver coisa tamanha
De Norte a Sul do país.
Portugal inteiro vergado
A um tempo alterado,
Stressado, conturbado,
Desnorteado
Como se o céu apertasse
O coração de uma nação
Com depressão atrás de depressão.
Vieram Joseph e Kristin,
Depois Leonardo e Marta,
Tempestades sem descanso nem piedade,
Sem preces nem oratórias
É vento, é chuva, são cheias,
Inundações
carregadas de emoções
demasiadamente contraditórias
Uma devastação que não escolhe
Terra, nome ou idade.
Em Leiria e na Marinha Grande
O vento mostrou a sua fúria,
Rajadas violentas, impensáveis,
A mais de 200 km/h num país tão pequeno,
Arrancando telhados, árvores, memórias,
Deixando para trás destruição
E despesas incalculáveis.
Mais abaixo, no coração do Alentejo,
Alcácer do Sal sentiu o peso da água,
Campos tomados, caminhos perdidos,
O Sado alargado em silêncio,
A vida suspensa entre margens.
No Centro do país,
Montemor-o-Velho acordou para ver
O rio Mondego crescer,
Lento, largo, ameaçador,
A história às portas de casa,
O rio a lembrar que também quer mandar
Quando decide transbordar.
E no Ribatejo,
Onde a lezíria é verde e fértil,
O Tejo impôs respeito.
Abrantes, Santarém, Almeirim,
Benavente e Salvaterra de Magos,
Campos feitos espelho,
Orgulho quase desfeito
Estradas cortadas, dias parados,
Um povo entre a água e a esperança.
Mas é em Coruche, a minha terra,
Onde o peito aperta mais forte.
O Sorraia cresceu noite dentro,
Subiu calmo, mas sem aviso,
Quase galgava o dique de proteção,
Linha frágil entre o seguro e o caos.
Olhos presos ao rio,
Corações suspensos,
A rezar para que aguentasse mais um pouco,
Para que a terra resistisse
A mais esta provação.
A chuva cai quase sem parar,
E ironia das ironias,
Por ela tanto se esperava e rezava,
Tanta falta fazia a quem precisava de viver.
Hoje, aos céus é de bradar
Que a água tão desejada
Dê tréguas, abrande,
Poupe um povo cansado de lutar
Para proteger o que é seu.
Tudo é preciso, bem sabemos,
Mas com conta, peso e medida:
A chuva, o vento, o sol,
Bens preciosos da vida.
Intempéries sempre houve,
Mas com a Mãe Natureza
Ninguém mede forças.
Imperiosa e implacável,
Quando decide mostrar poder,
Lembra-nos quem manda afinal.
Mas quando o perigo ameaça,
Ergue-se a força maior:
A de um povo que não vira a cara.
União, solidariedade,
Amor que não se afoga nem cai,
Mãos que ajudam mãos,
Gente que não abandona ninguém.
E assim, no meio da contrariedade,
A vida ganha outro fulgor,
Porque Portugal —
De Coruche a todo o país —
Tem, e terá sempre,
Um GRANDE Coração!
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