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Onde Ficam os Que Ficam

Hoje partilho um momento que me é particularmente especial.

O poema “Onde Ficam os Que Ficam” foi selecionado para integrar a coletânea Todo o Sal do Mar (vol. II), da Editora Cordel D’ Prata, no âmbito das Jornadas da Poesia 2026.

Este poema nasce de um olhar atento sobre o interior de Portugal e não apenas sobre um lugar geográfico, mas como espaço de memória, pertença e resistência. Fala das aldeias que se vão ficando vazias, dos silêncios que crescem onde antes havia vida e das pessoas que, apesar de tudo, escolhem ficar.

É um poema sobre ausência, mas também sobre permanência. Sobre o que parte e, sobretudo, sobre o que resiste.

Escrevê-lo foi uma forma de dar voz a realidades que, muitas vezes, não chegam às primeiras páginas, mas que existem, persistem e moldam quem somos enquanto país.

Ver este texto publicado, lado a lado com outros autores, é uma honra e, ao mesmo tempo, uma responsabilidade. A de continuar a colocar na escrita aquilo que nos identifica, que nos distingue, nos valoriza e nos constrói enquanto seres humanos. Porque, no fundo, escrever é isso: tentar compreender e dar voz àquilo que sentimos.

Obrigada a quem lê, a quem sente e a quem, de alguma forma, fica desse lado.


Deixo-vos um excerto do poema que figura nesta maravilhosa coletânea.

Onde Ficam os Que Ficam

Em Portugal, 
no seu interior, 
há aldeias que desaprendem o som 
e ficam sem tom. 
Não é de repente. 
É devagar, muito lentamente, 
como quem retira a mesa posta sem fazer barulho 
e, no silêncio, fere o próprio orgulho. 

As vozes vão partindo, uma a uma, 
deixando para trás o que lhes é querido, 
para cidades maiores, 
para países distantes, 
para horizontes largos e inquietantes, 
para promessas que brilham além 
do conhecido, 
em busca de um futuro maior 
do que a aldeia comporta. 

Ficam as casas. 
De persianas corridas, 
portas encostadas, 
sorrisos perdidos 
e, pelo meio, 
cartas antigas na caixa do correio 
com nomes que já não respondem. 

As ruas perdem passos. 
O café já não enche, fica triste. 
A mercearia resiste, 
qual orgulho ferido, 
mais por amor do que por lucro. 
O sino toca, latente, 
para menos gente, 
com ecos enfraquecidos.

(...)


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