10 de junho, feriado, dia de celebração da Língua Portuguesa, de Camões e das Comunidades Portuguesas.
Ser português é mais que uma nacionalidade, é algo de teimoso, nostálgico e doce ao mesmo tempo. É uma espécie de resistência silenciosa que não se apregoa aos quatro ventos, mas que se revela em cada gesto. E não é uma questão de geografia ou de língua, é uma forma de estar no mundo, feita de contrastes, de memórias e de uma certa insistência em sobreviver, mesmo que ao nosso redor tudo pareça empobrecer.
O povo português é um povo acolhedor, não só na forma subtil e educada de abrir a porta por educação, mas no gesto antigo de colocar mais um prato na mesa sem perguntar porquê, pois há sempre espaço para colocar mais um copo, uma cadeira improvisada ou mais um pedaço de pão repartido.
A hospitalidade do povo português não precisa de anúncio, nasce de dentro, de uma história feita de partidas e regressos, de quem sabe o que é estar longe e o que significa ser recebido.
Mas ser português também é carregar uma certa melancolia, uma certa fragilidade das coisas e talvez por isso sejamos um povo solidário, em que hoje ajudamos e amanhã podemos ser nós a precisar de ajuda, e que no meio do caos ainda há quem escute, pare e estenda a mão sem esperar retorno ou quem se comova com a dor alheia.
O português também trabalha muito, levanta cedo, insiste e persiste quando as coisas parecem não valer a pena, faz muito com pouco e ainda desenrasca e improvisa quando tudo parece perdido, demonstrando que não é só no trabalho que se define o valor de uma pessoa, mas sobretudo e, principalmente, no seu sentido de identidade e sobrevivência.
Por vivermos tempos apressados e estranhos, em que o ruído parece valer mais que o conteúdo, em que a opinião gritada tenta calar a escuta, a sociedade torna-se individualista, mais dura, mais inclinada ao julgamento e em que é cada vez mais fácil apontar o dedo, a arrogância veste-se de certeza absoluta e o extremismo cresce onde falta diálogo. Neste sentido, ser português pode ser um ato de resistência, não com gritos, mas com compreensão, humanidade, solidariedade e empatia.
Ser português é olhar para o passado sem ficar preso nele, é honrar o que fomos, mas construir o que queremos ser. É perceber que identidade não é algo fixo, mas algo que se vive, que se transforma, que se decide todos os dias.
Talvez hoje, mais do que nunca, ser português seja escolher a proximidade num mundo de distância. Escolher a empatia num tempo de dureza. Escolher a simplicidade num cenário de excessos.
No fim, ser português é isto: não desistir do humano, mesmo quando tudo parece empurrar no sentido contrário.

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